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Silas Cerqueira, grande lutador do movimento da paz português, faleceu ontem, dia 22 de Agosto

homenagem a laura lopes e silas cerqueira 2 20140605 1304571584É com grande tristeza e consternação que o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) informa do falecimento, aos 86 anos, de Silas Cerqueira, nascido a 8 de Setembro de 1929, histórico e incansável lutador do movimento da paz português e dirigente e activista do CPPC desde a sua criação.

Nesta triste ocasião e certo de interpretar o sentimento dos activistas do movimento da paz em Portugal, o CPPC envia à família de Silas Cerqueira as suas mais sentidas condolências e votos de pesar.

Silas Cerqueira é, inquestionavelmente, uma das figuras mais destacadas do movimento da paz e da solidariedade em Portugal, ao qual está ligado praticamente desde a sua criação, na viragem da década de 40 para a de 50 do século XX.

Silas Coutinho Cerqueira, oriundo do Porto, de uma família baptista, cedo integrou o movimento antifascista, nomeadamente, o Movimento de Unidade Democrática – Juvenil (MUD – Juvenil).

Estudou Teologia e Filosofia das Religiões em Louisville e na Universidade de Columbia em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Aí tomou contacto e combateu contra a descriminação racial e também com a cruel realidade da Guerra da Coreia, colocando-se, de imediato, ao lado do povo coreano contra a ingerência e a agressão norte-americana e pela independência e reunificação do seu país, tendo ainda nos EUA convivido com várias personalidades progressistas.

Profundamente marcado por esta experiência e empenhado neste combate, integrou-se no movimento da paz português assim que regressou a Portugal em 1952 – estava-se então nos anos do Apelo de Estocolmo contra as armas nucleares, do Pacto de Paz entre as cinco grandes potências, da contestação à guerra na Coreia e à presença de Portugal na NATO. Em Portugal, eram os tempos duros da repressão fascista, que procurava silenciar pela força a reclamação do povo português à paz, à liberdade e ao progresso.

Este seu envolvimento na luta pela paz valeu-lhe a prisão, em finais de 1952. O seu «crime»? Colocar um ramo de flores num monumento aos combatentes da Grande Guerra, iniciativa tradicional do movimento da paz nesses negros anos de opressão. Esta prisão desencadeou uma imensa contestação por parte da comunidade baptista e dos sectores democráticos portuenses. Em 1955 seria detido no Porto com mais de uma centena de outros jovens dos quais 52 seriam julgados em 1957, entre eles Silas Cerqueira e sua mulher Antónia Lapa. Voltaria a ser preso várias vezes, designadamente em 1953, 1954 e 1958.

Até à Revolução de Abril, iniciada em 25 de Abril de 1974, em Portugal ou em França (para onde foi viver no exílio), e onde foi investigador de ciências políticas no Centre de Relations Internationales (CERI) da Fondation Nationale de Sciences Politiques em Paris bem como na Universidade de Besançon e no Institut des Hautes Études d’Amérique Latine, Silas Cerqueira nunca mais deixou de lutar activa e abnegadamente pelos valores da paz, do desarmamento, da solidariedade, da amizade e cooperação entre povos e Estados, de dar combate ao regime fascista que oprimia o povo português e os povos das colónias africanas.

Durante este período, Silas Cerqueira representou inúmeras vezes o movimento da paz português em reuniões, encontros e congressos do Conselho Mundial da Paz.

Após a Revolução de Abril, Silas Cerqueira regressa a Portugal onde prossegue e intensifica a sua acção em prol da paz, agora em liberdade.

Entre múltiplas e diversificadas iniciativas, em 1975, está na organização da conferência internacional de solidariedade com os povos português e angolano contra a ingerência imperialista, que traz a Portugal o então presidente do Conselho Mundial da Paz, Romesh Chandra.

Em Abril de 1976, participa activamente na constituição formal do Conselho Português para a Paz e Cooperação, que deu expressão legal a uma realidade sólida e há muito existente em Portugal, mas durante anos duramente reprimida: uma frente de luta em defesa da paz que integra pessoas de diversos sectores da sociedade portuguesa, com diferentes ideologias políticas e crenças religiosas.

No Conselho Português para a Paz e Cooperação, Silas Cerqueira teve um papel preponderante no alargamento do movimento da paz e na solidariedade activa com os povos que, um pouco por todo o Mundo, resistiam ao imperialismo.

Em Novembro de 1979, está na organização da “Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina”, realizada em Lisboa. A participação de Yasser Arafat nesta importante iniciativa constituiu a primeira visita do dirigente palestino à Europa Ocidental, contribuindo decisivamente para romper o isolamento a que a causa palestiniana se encontrava então sujeita nesta região do Mundo.

A Conferência Internacional de Solidariedade com os Estados da «Linha da Frente» (Zâmbia, Tanzânia, Botsuana, Moçambique, Angola, Zimbabué, Lesoto e, em representação do povo sul-africano, o Congresso Nacional Africano/ANC), visando a libertação nacional dos povos colonizados e a eliminação do apartheid, realizada em Lisboa, em Março de 1983, teve também a destacada participação de Silas Cerqueira, assim como outras importantes iniciativas designadamente a Conferência de Solidariedade com a Revolução Sandinista da Nicarágua em 1989.

O mesmo sucedeu com a criação do Movimento Português contra o Apartheid, que, partindo da iniciativa do CPPC, congregou diversas organizações e personalidades. Foi no âmbito deste movimento que Nelson Mandela participou num conjunto de acções de contacto com o povo português, que tantas vezes expressou a sua solidariedade para com a luta do povo sul-africano.

Silas Cerqueira foi, desde o primeiro momento, activamente solidário com os povos das antigas colónias portuguesas e com os seus movimentos de libertação nacional, em particular com o povo angolano e o MPLA na sua acção pela consolidação da independência, tendo leccionado como professor convidado na Universidade de Economia Agostinho Neto, em Luanda, de 1989 a 1991. Após o seu regresso a Portugal foi professor na Universidade do Minho até à sua reforma.

Outra grandiosa iniciativa à qual deixa o seu nome ligado é a constituição do movimento «Não às Armas Nucleares», que englobou diversas organizações, sindicatos, municípios e personalidades e promoveu grandes acções unitárias em Portugal.

Silas Cerqueira participou activamente na criação do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM) em 2005, onde diversificadas individualidades portuguesas se congregam.

Lutador incansável pela causa da paz, Silas Cerqueira foi membro da Direcção do CPPC durante dezenas de anos, integrando actualmente a sua Presidência.

Silas Cerqueira participou no acto de homenagem a si dedicado, que o Conselho Português para a Paz e Cooperação organizou dia 31 de Maio de 2014.

A melhor homenagem que o CPPC e os amantes da paz podem prestar a Silas Cerqueira é seguir o exemplo deste combatente da paz, prosseguindo a luta pela justa causa à qual dedicou toda a sua vida.

O CPPC informa que o velório de Silas Cerqueira se realizará na Casa da Paz, sede do Conselho Português para a Paz e Cooperação, em Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca, 56, 2º, entre as 17h e as 22h de Quarta-feira, 24 de Agosto e as 10h e as 16h de Quinta-feira, 25 de Agosto, e que o seu Funeral terá lugar no cemitério do Alto de São João a partir das 17h00.

Presidência

Presidência

  • A Presidência é composta por aderentes de reconhecido mérito, até ao máximo de 100, que, pelas suas actividades, tenham contribuído de forma assinalável para a causa da paz, da cooperação e da amizade entre os povos; e pelos membros que compõe a Mesa da Assembleia da Paz.
  • A Presidência reúne-se pelo menos uma vez por ano, para apreciar os problemas nacionais e internacionais relacionados com a defesa da paz, a cooperação entre os povos e a actividade do Conselho Português para a Paz e Cooperação, e, a solicitação da Direcção Nacional, sempre que se verifique qualquer acontecimento quem, pela sua importância deve ser objecto de especial ponderação.

 

Membros:

Abílio Fernandes, Alfredo Monteiro, Alice Vieira, Álvaro Manuel Balseiro Amaro, Amílcar Campos, Ana Teresa Vicente, António Arnault, António José Avelãs Nunes, António Pereira Soares, António Pessoa, António Vitorino D’Almeida, Armando Caldas, Arménio Carlos, Augusto Flor, Avelino Pacheco Gonçalves,Carlos Araujo Sequeira, Carlos Carvalhas, Carlos Carvalho, Carlos do Carmo, Carlos Humberto Carvalho, Carlos Manuel Garcia, Carlos Manuel Pinto de Sá, Carmen Marques, Cláudia Madeira, David Martelo, Deolinda Machado, Dieter Dellinger, Elvira Palhinhas, Eugénio Cavalheiro, Francisco Cordeiro, Francisco Santos, Frederico de Carvalho, Frei Bento Domingues, Gustavo Carneiro, Hélder Madeira, Helena Barbosa, Helena Casqueiro, Isabel Castro, Joana Dias Pereira, João Falcão de Campos, João Martins, João Manuel Rocha da Silva, João Saraiva, Joaquim Cardador dos Santos, José Augusto Paixão, José Ernesto Cartaxo, José Goulão, José Manuel Dourada Mendes, José Manuel Tengarrinha, Laura Lopes, Levy Baptista, Luís Varatojo, Luis Vicente, Manuel Begonha, Manuel Duran Clemente, Manuel Begonha, Manuel Freire, Manuel Loff, Maria das Dores Marques Meira, Maria do Céu Guerra, Maria Graciete Martins da Cruz, Maria Helena Rato, Mário Pádua, Mário Ruivo, Miguel Madeira, Nuno Higino, Paula Santos, Pedro Pezarat Correia, Rodrigo Francisco, Rosa Cristina Gonçalves da Palma, Rui Namorado Rosa, Sandra Benfica, Sérgio Ribeiro, Silas Cerqueira, Tiago Vieira, Valdemar Santos, Vasco Pinto Leite, Vítor Pinto, Vítor Silva.