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A intervenção de Vítor Pinto Basto.

Mães vítimas da guerra e como a arte pode ajudar à Paz

Tenho para mim que não há melhor guerreiro do que um defensor da paz. Este, estoico, transmite a mensagem que a beleza de uma flor ou de um gesto amoroso vale mais que todas as balas do mundo. O problema é que se fazem guerras por causa de saques absurdos ou de ódios lamentáveis e as vítimas contam-se não só em quem nas guerras morre mas também entre quem recebe soldados feridos e deles trata.

Há um olhar numa obra de Rosa Bela Cruz, nesta Bienal de Gaia 2017, que me avivou a memória e sugeriu o início para o que gostaria um dos assuntos que gostaria de partilhar convosco. Pela sua singular similitude, levou-me para olhares de duas mães de dois então jovens militares que viveram os horrores da guerra. Elas tinham olhar assim, que mistura expectativa, ansiedade, temor, apoquentada angústia. Uma recebeu o filho estropiado, numa cadeira de rodas; outra não sabia como adocicar os demónios que minavam a cabeça do seu filho e faziam explodir muitos momentos dos seus dias com desencantados e incompreensíveis gestos. Conheci outras mães que viveram angustiadas numa guerra colonial em que morreram cerca de 8300 portugueses, provocou cerca 100 mil feridos e mais cerca de 140 mil afetados psicologicamente.

Essas mulheres e esses filhos soldados viviam em Oliveira do Douro. Uma, tratou as chagas até ao último suspiro daquele que ficava à porta de casa, nos dias sol, sentado na cadeira de rodas em que chegou de África, a olhar sem brilho para a sua falta de sonho. Outra, chorava o filho que chegou desequilibrado e se desequilibrou por mundos demoníacos como a droga, o álcool, até nos dizer adeus. Já lá vão mais de 40 anos e esse foi o meu contacto com a guerra: o de ver como sofrem também os vivos que com carinho ou sem ele vivem esse absurdo de tratar as mazelas dos seus filhos ou maridos soldados.

Convidaram-me, na condição de jornalista, a participar neste debate e eu tenho andado a pensar no que iria discutir convosco. Pensei em só vos ler um poema do meu poeta de eleição – José Gomes Ferreira; pensei em falar da minha experiência de jornalista, sentado na secretária, a escrivinhar sobre o que as agências nos faziam chegar sobre as guerras; falar sobre esta estranha frieza de a vida humana não ter o mesmo valor jornalístico – um norte-americano morto num cenário de guerra dará título e notícia alargada, dez iraquianos ou africanos mortos num atentado dará uma breve...

Pois bem, pensei em tudo isso, mas mudei ligeiramente a rota quando participei recentemente num debate sobre o Médio Oriente e ali ouvi de novo haver na Faixa de Gaza o maior campo de concentração existente no mundo, com dois milhões de palestinianos proibidos sequer de ir em linha reta em direção ao mar. Proibidos por um Estado de Israel que ali se implantou e exerce a sua força. Tantos palestinianos a viverem os seus direitos violados em cada segundo.

Nesse encontro apercebi-me, mais uma vez, que perante a guerra, desde que ela esteja longe, na generalidade, somos uns ausentes. Teimamos em reduzir à insignificância o que dá valor à natureza humana: a que de se procurar saborear em paz essa dádiva primordial a que chamamos VIDA. Vejo essa posição defensiva imposta pela distância geográfica como natural, mas não aceito como natural o posicionamento estratégico e demagógico que toma a generalidade das pessoas perante as guerras. Cresci intoxicado por notícias como aquelas que os israelitas são tão bons que fizeram de um deserto um jardim, etc., etc., mas nessas notícias não explicaram de quem era esse designado deserto que certamente deserto não era e cuja ocupação cria esta guerra sem sentido num mundo cada vez mais pequeno...

Nesse encontro, lembrei-me de milhares de mulheres que devem sofrer como ninguém a impotência de criar filhos para uma guerra, sem sentido, claro, como sem sentido são as guerras, e de elas próprias serem vítimas dessas guerras. Vítimas e curandeiras de vítimas. Mulheres que, com o seu amor, fertilizam a necessidade de paz. E voltei às mulheres de Oliveira do Douro a que o retrato de Rosa Bela Cruz me fez regressar. Esse olhar de um englobante sem sentido: o de haver guerras, quando a nossa principal guerra mundana deveria ser a de criar condições para todos vivermos bem em paz e num mundo que ainda não sabemos quem criou.

Não queria falar sobre o que não sei, mas imagino saber, coisas sobre como a quem interessam as guerras, para que servem, quem lucra com elas. As grandes forças globais são desumanas e pouco se interessam sobre quem sofre. A mim, interessa-me quem sofre e penso que deverá ser o papel do artista vincar a força desses heróis anónimos, vítimas diretas ou indiretas de guerras todas elas sem sentido e com alicerces economicistas.

Essas recentes guerras economicistas têm tido subjacente uma mensagem. Os países chamados imperialistas costumam realizá-las para demonstrar ao mundo que são eles que mandam no mundo. E normalmente esses países chamados imperialistas costumam fazer essas guerras dizendo que vão libertar os povos dos países visados. Foi isso que aconteceu no Afeganistão, no Iraque, Líbia, na Síria e está a ser feito agora verbalmente com o conflito na Coreia. Não me parece que o resultado tenha sido libertador mas causador de mais espezinhamento dos povos agredidos e provocadores de um estranho efeito com ataques cirúrgicos que causam terror nos países ocidentais.

A arte deverá assim ser chamada para nos alertar para uma necessidade de paz. Deve, um pouco como Picasso fez ao denunciar na tela a chacina fascista de Guernica, mostrar o absurdo de se matar gente inocente só por essa gente, entre outras coisas a respeitar, ter uma ideia diferente da que outros lhe querem impor.

Por esse motivo, penso que os artistas aplicar a constante denúncia e alertar para a sensata destruição do que agrilhoa a vida - seja pelas artes plásticas, pelo teatro, pelo cinema – e mostrar ao mundo que a alegria e a paz é sempre muito mais forte que qualquer guerra desumana. E que a maior luta que deverá ser tratava é a de se trabalhar diariamente pela igualdade entre as pessoas, num planeta Terra que, sim, está a necessitar de Paz de Paz de Paz.